05 maio 2010

1 de Maio, Street War Fest 5 e a (não) comercialização do lazer (Parte 2)


Este post inclui algumas fotos do Street War Fest 5 (dia 1) da autoria de JMS.

Na sequência do último post, vou deter-me mais um pouco no livro de Seabrook, que aborda de forma brilhante alguns dos problemas da (nossa) sociedade contemporânea, nomeadamente nos âmbitos do trabalho e do lazer.

Seabrook coloca o dedo na ferida: no mundo do hipercapitalismo, em que a maximização do lucro implica a minimização dos custos de produção através, por exemplo,  da automação ou da deslocalização, não há empregos para todos. Ou, visto de outro prisma, não é necessário que todos trabalhem, nem que se trabalhe tanto.

Por outro lado, há uma série de trabalhos que não são remunerados, tais como a gestão doméstica ou os cuidados de dependentes (crianças, deficientes ou idosos). Seabrook (e outros autores, como R. Sennett) defende o reconhecimento deste tipo de tarefas como emprego e ainda  a criação de uma espécie de  rendimento mínimo para todos os membros da sociedade (basic income).

Sennett defende também a diminuição geral do número de horas de trabalho/semana, assim como a partilha de empregos. Deste modo, as pessoas poderiam ter mais tempo de lazer, que poderiam ocupar, por exemplo, com o seu desenvolvimento pessoal. Estamos decerto muito longe deste cenário social, cuja concretização exigirá sem dúvida um grande esforço colectivo e mudança de mentalidades.

Temos, em vez disso, uma sociedade em que a falência (óbvia) do sistema continuará a não ser reconhecida (por ser beneficiador do grande capital),  em  que aqueles que ainda têm emprego são cada vez mais sobrecarregados, explorados, 'esmifrados' até ao limite da sua sanidade física e mental (atentemos nas doenças e suicídios com origem "profissional"), enquanto que um número que não pára de crescer está desempregado,  com um "tempo livre" forçado, indesejado e muitas vezes destrutivo.

Um tempo livre que não é de lazer, dado que nas sociedades ditas democráticas e desenvolvidas o lazer (quer seja ocupado com a educação ou o entretenimento) tem sido sistematicamente privatizado, é pago, e logo, apenas acessível a alguns (muito menos a quem foi privado do seu meio de subsistência).

Basta que pensemos nas chamadas indústrias culturais : televisão (pública vs cabo), cinema, concertos, cinema,  livros, filmes, música (CDs/DVDs), etc., até mesmo o acesso à Internet, hoje sem dúvida o mais extraordinário meio de informação e comunicação. Que percentagem da população tem acesso à generalidade destes bens culturais...e com que 'abundância'?

E é por isso que vale a pena estar atento(a) à cada vez mais reduzida oferta cultural/de lazer gratuita existente,  e aproveitar as iniciativas/os equipamentos culturais de cariz autárquico ou associativo, como as bibliotecas, as oficinas, ou os inúmeros Festivais Jovens que estão a ocorrer um pouco por todo o país.

 
E é aqui que (finalmente) chegamos ao Street War Fest, um evento musical anual já na sua 5ª edição, por onde passaram este ano mais de uma dezena de bandas do circuito alternativo nacional. Nos nossos tempos 'hipercapitalizados' em que (quase) tudo - incluindo o lazer -  é pago e onde poucos aceitam trabalhar sem retribuição financeira, este evento destaca-se, desde logo, pelo facto de ser gratuito e totalmente DIY, ou seja, organizado por um conjunto de pessoas que oferecem o seu tempo e o seu trabalho para a sua realização (nos  tempos "hiperindividualistas" em que vivemos gestos como estes não podem deixar de ser notados e devidamente apreciados).

Este evento destacou-se igualmente pela qualidade e reputação dos músicos que nele participaram e que, pela arte e não pelo dinheiro, insistem e não desistem de conjugar (decerto com esforço e boa vontade) as suas vidas profissionais e pessoais paralelas com os seus projectos musicais totalmente DIY (ou seja, assumindo e controlando todos os estágios do processo, desde a criação à divulgação e distribuição).

Destacou-se, para mim, pessoalmente, e especialmente na data histórica que se celebrava (1 de Maio), pela participação de bandas que privilegiam a mensagem, e que abordam criticamente temáticas da vivência contemporânea/da actualidade social, económica  e política, continuando assim a tradição da música de intervenção, tão importante nos processos da democratização nacional. Refiro-me particularmente a Punk Sinatra, Gazua e Dalai Lume, três dos projectos musicais mais interessantes e mobilizadores da actualidade.

Ficam por isso algumas fotos destas três actuações, com algumas notas breves e os links para os websites das bandas no myspace, onde estão disponíveis músicas, vídeos e datas das próximas actuações.


A prestação dos Punk Sinatra foi verdadeiramente frenética, com um Almendra imparável e talvez ainda mais expressivo e exuberante do que em Peste & Sida...




A sonoridade e mensagem poderosas dos Gazua também não deixaram ninguém indiferente, como a imagem bem ilustra.


A banda apresentou algumas músicas do novo trabalho Contracultura, com lançamento marcado para o dia 18 de Junho no Cinema S. Jorge (Lisboa).



A prestação dos Dalai Lume inflamou (quase literalmente) a plateia, que correspondeu incondicionalmente.


De realçar a expressividade dramática que caracteriza o vocalista Zorb, aqui acompanhado pelo músico Freddy Locks.


A subida ao palco de João Ribas (Tara Perdida), a convite de Zorb, para colaborar na interpretação de dois temas, foi também um dos pontos altos da prestação dos Dalai Lume.



A música ambiente ao longo da tarde e noite esteve a cargo do inconfundível DJ Billy, com uma selecção muito abrangente, que incluiu  temas punk clássicos e incontornáveis, assim como produção recente e pouco conhecida, tanto de bandas portuguesas como internacionais.

5 comentários:

  1. Gostei muito do post.
    Fiquei curioso com esse livro que falas.

    Bjs
    Rui "Contacto" Loureiro

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  2. Obrigada pelo feedback, é sempre bom saber...

    O livro é de 1989 (Jeremy Seabrook, The Leisure Society, Blackwell) e já só está disponível em 2ª mão por exemplo na abebooks.uk, mas posso facultar cópia...

    O autor, jornalista,escreve, entre outros, para o The New Internationalist.
    Exº: http://www.newint.org/columns/essays/2009/12/01/rescuing-socialism/

    Também, muito interessantes: O livro do Richard Sennett, A Cultura do Novo Capitalismo, tem edição de 2007 da Relógio de Água e deve ser fácil de encontrar. Assim como A Cultura Mundo: Resposta a uma Sociedade Desorientada, de Serroy e Lipovetsky, que estou a ler neste momento.

    Abraço.

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  3. Subscrevo inteiramente e com a maior intensidade possivel!!!!
    hugo dionisio

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  4. Muito bom! Gostei particularmente da introdução que fazes e da maneira como descreves, num poder de sintese muito bom, o paralelismo entre aquilo que é a sociedade dos tempos que correm e aquilo que são os caminhos alternativos que cada um pode (ou deve) seguir.
    Já agora, fica o registo das dicas de leitura ;)
    Obrigadão por tudo!
    Beijos & agrafos,
    Zorb.

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  5. Obrigada eu, Zorb,Contacto, etc. pela vossa música inspiradora e mobilizadora (como as imagens demonstram)...e que me ajuda (e a tantos outros) a MANTER A CHAMA VIVA!Bjs!!!

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