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11 fevereiro 2011

Gazua: Novo Videoclip "Preocupa-te"


Bem a propósito da passagem do 'Tour Nado' Gazua pelo Algarve já este fim-de-semana, com actuações hoje em Faro e amanhã na Fnac do Algarve Shopping (Guia, Albufeira) e em Portimão (ver cartaz acima), para promoção do mais recente trabalho da banda, Contracultura (amplamente tratado aqui no A Crack in the Cloud), aqui fica o videoclip do excelente tema "Preocupa-te", recentemente disponibilizado na rede.

21 janeiro 2011

Fim-de-semana com muita música...para reflectir

Aproxima-se um fim-de-semana que convida à reflexão, e nem de propósito estão agendados, em vários pontos do país, concertos de excelentes bandas nacionais cuja música é, diria eu, ideal para nos ajudar a reflectir...

No âmbito da sua mini-tournée nacional, os Gazua (bem acompanhados por DJ Billy e pelos Asfixia) actuam hoje no Bar Alfa, em Leiria.

A começar bem o ano, os alentejanos Ventas de Exterko deslocam-se ao sul do país para duas actuações, hoje em Faro, amanhã em Aljezur.

Os irreverentes  R12  actuam também amanhã, na Lapa (Cartaxo) (ver destaques na barra lateral), e não deixarão com certeza (esperamos) de brindar o público com o elucidativo
 "ka-va-ku".
(Aproveitamos para recordar mais uma vez que o excelente trabalho Boletim Agrário (2008) dos R12 (que inclui o tema referido) se encontra disponível para download gratuito aqui.

Ficam três vídeos de temas (bem conhecidos) relacionados com o acontecimento nacional do momento. Não deixa de ser muito significativo que dois  deles, apesar da sua indiscutível actualidade, tenham surgido durante o longo - e inesquecível - reinado cavaquista.

O terceiro tema, "Sem eira nem beira", que surpreendeu os seus autores por ter sido apropriado para um  protesto popular contra o Primeiro-Ministro, é, segundo Kalu, baterista dos Xutos & Pontapés (que a vocaliza),  "mais um grito de revolta (...) um alerta para o estado da Justiça e para uma classe política em geral que, volta e meia, toma atitudes que deixam os cidadãos desamparados".

Não podíamos concordar mais, com excepção, é claro, da expressão "volta e meia", que nos parece dispensável e pouco acertada.






06 dezembro 2010

Gazua: próximo concerto e Tour 2011


Os Gazua preparam-se para iniciar a tournée do seu mais recente trabalho, Contracultura, acompanhados pelos Asfixia e pelo DJ Billy, e têm já várias datas confirmadas, com uma passagem por Beja (Galeria do Desassossego) a 26 de Fevereiro.

Entretanto, o próximo concerto da banda está já agendado para o próximo sábado, 11 de Dezembro, no Santiago Alquimista, por ocasião do lançamento do novo trabalho dos Fita Cola.

Fica o vídeo do tema "Para Todos", bastante ilustrativo da mensagem dos Gazua, interpretado ao vivo na Festa do Avante (2009).

08 novembro 2010

Billy-News: Review do concerto dos Gazua no Music Box

(Foto: Nuno Martins,

O destaque de hoje do A Crack in the Cloud vai para a excelente review do concerto dos Gazua no Music Box na passada quinta-feira, da autoria de Billy, e publicada hoje no seu blog Billy-news, que nos dá uma imagem muito viva da actuação dos Primata Robot, de mais uma excelente e sempre original performance dos Gazua, assim como do ambiente acalorado e festivo que se viveu no Music Box, e para o qual o próprio Billy contribuiu, com mais uma das suas DJ sessions.

A review está acompanhada de excelentes fotos, da autoria de Nuno Martins. Para ler na íntegra aqui.

Ficam alguns excertos representativos:

"(...) foi uma noite bem agitada, bastante animada com muita gente a não querer perder mais uma excelente actuação da banda lisboeta."
 
"Pelas 00h45 entram os Gazua em palco. Aliás, não foi exactamente em palco mas sim no meio da multidão que já enchia quase completamente o Musicbox (...)"

"Percorrem temas dos três discos com uma ligeireza e ao mesmo tempo com uma segurança a que raramente assistimos hoje me dia."

"Sempre excelente é ouvir "Morreu O Coveiro" com Paulinho a cantar o tema numa pose a fazer lembrar Lemmy dos Motörhead (...)"

"A banda termina com uma ´chuva` de aplausos, mais que merecidos. Os Gazua não deixam ninguém indiferente, desde a primeira fila até lá atrás, mesmo ao fundo da sala."

"Já era tarde, mas mesmo numa Quinta-feira (nesse momento, já Sexta) o público decidiu não arredar pé e ainda quiseram ouvir bastantes temas de música portuguesa na excelente aparelhagem sonora do Musicbox."

"Ainda se pulou, dançou e gritou bem alto que a música nacional é muito boa e que ´mexe` com muita gente!"

(Review da autoria de Billy, autor do blog Billy-News e DJ).

02 novembro 2010

Destaque da Semana: Gazua em concerto



Para contrariar o deserto de concertos que tem marcado os últimos tempos, esta semana há dose dupla de GAZUA, uma das bandas nacionais mais profícuas da actualidade, acompanhados pelos Primata Robot (dia 4) e pelos Ex Votos (dia 6). Ainda por cima, com a participação de DJ Billy, o que garante à partida noites recheadas do melhor do punk rock português e internacional.

É razão suficiente para darmos o devido destaque a estes concertos, que antecedem uma tournée de divulgação do novo trabalho dos Gazua, Contracultura, que ocorrerá no início de 2011, com concertos de norte a sul do país.

Deixamos aqui também alguns links para artigos sobre os Gazua:

1. Entrevista recente realizada pelo blog Billy-News a João Morais, vocalista dos Gazua;

2. Entrevista do A Crack in the Cloud a João Morais por ocasião do lançamento de Contracultura:

3. Análise de Contracultura, o último trabalho dos Gazua;

4. Reportagem do lançamento de Contracultura;

E por fim, fica um vídeo com excertos da festa de lançamento deste último trabalho dos Gazua, que teve lugar em Junho passado, assim como o vídeo teaser do concerto do próximo dia 4 de Novembro no Musicbox.


14 outubro 2010

Billy-News entrevista João Morais (Gazua)



A excelente entrevista que Billy, o autor do reputado blog Billy-News, fez recentemente a João Morais, vocalista dos GAZUA, é não só referência obrigatória aqui no A Crack in the Cloud como absolutamente imperdível não só para os apreciadores de punk rock como para todos aqueles que se interessam pela música portuguesa em geral. Para ler a entrevista na íntegra, clicar aqui.

Os Gazua são sem dúvida uma das bandas mais interessantes, profícuas, inovadoras e interventivas da actualidade musical nacional.

Poucos meses após o lançamento do seu terceiro trabalho, Contracultura, que mereceu na altura o devido destaque neste blog,  os Gazua preparam-se para voltar à estrada, ao mesmo tempo que pensam já num novo projecto.

No decurso dos últimos posts, que exploraram as relações estreitas entre a música e o design gráfico,  impõe-se também aqui referir o original e cuidado grafismo/artwork, que é mais um elemento distintivo dos GAZUA, da autoria do seu vocalista,  também designer,  João Morais.



Ficam alguns excertos da entrevista, assim como os apelativos cartazes e um vídeo teaser relativos aos próximos concertos: dia 4 de Novembro no Music Box (Lisboa) e no dia 6 de Novembro no In Live Caffé (Moita). Esperemos que sejam os primeiros de muitos mais, e um pouco por todo o país.

(Joao Morais, fotografia de Sónia Pena


(João Morais: sobre o tema orientador do novo trabalho, Contracultura)

"Os anos 60 servem (ou deviam servir) sem dúvida de inspiração para a nossa maneira de estar actual. Na América levantaram-se vozes contra a guerra do Vietname e contra a segregação racial, em França os estudantes e depois toda a população levantaram a voz por melhores condições de vida.

Tendo em conta a situação política que Portugal vive actualmente, e a forma como perspectiva o futuro, penso que não podemos ficar quietos e calados. Os Gazua são a nossa forma de levantar a voz contra um sistema político hipócrita e egoísta."

(...)

"(...) o que queremos é manter sempre o factor surpresa presente no nosso trabalho. No dia em que o que fazemos se tornar demasiadamente previsível, terminamos o projecto. Fazemos música em primeiro lugar que nós gostamos e esperamos que o pessoal goste também.

Fazer música à medida do público é o que torna as bandas superficiais e artisticamente desinteressantes."






GAZUA ao vivo no Musicbox 4 nov. 2010

GAZUA | Myspace Music Videos

04 setembro 2010

Peste & Sida amanhã na Festa do Avante

Este post inclui os vídeos de "Cai no Real" dos Peste & Sida e de "Para Todos" dos Gazua, ao vivo na Festa do Avante.



Não fosse pelas notícias veiculadas pelos principais media nacionais (ver por exemplo a notícia do Público, aqui) seria difícil acreditar que este despretensioso cartaz pudesse ter incomodado certos políticos portugueses ao ponto de os levar a mobilizar recursos autárquicos - desviando-os de outras tarefas mais úteis e necessárias? - para a sua persistente remoção... Hilariante? sem dúvida, apesar de 'tragicómico' ser talvez o adjectivo mais adequado à acção em causa e, em grande medida, à vida político-partidária nacional.

Sem pretender perorar sobre a indiscutível relevância que esta Festa detém, limito-me a mencionar a diversidade e a riqueza do seu programa musical,  também responsáveis pela sua popularidade e sucesso...independentemente dos cartazes que se encontram afixados um pouco por todo o país, na maioria dos casos sem perturbarem a paz de espírito dos respectivos autarcas, decerto preocupados com questões mais prementes e de outra natureza.

Destacamos aqui a actuação dos Peste & Sida, agendada para amanhã cerca das 21h e que sem dúvida fechará esta festa da melhor forma.
Ficam assim, para recordar,  os vídeos de duas GRANDES bandas nacionais ao vivo em edições passadas da Festa do Avante: "Cai no Real" dos Peste & Sida (Festa do Avante 2007) e  "Para Todos" dos Gazua (Festa do Avante 2009).





24 junho 2010

Festa de Lançamento de Contracultura (GAZUA): Foto-reportagem

Fotos dos Gazua da autoria de José Dinis.


A festa de lançamento de Contracultura, o terceiro álbum de originais dos Gazua, dificilmente podia ter sido melhor e constituirá decerto, pelo menos para os presentes, um dos acontecimentos musicais de 2010.

A noite estava esplêndida, e o ambiente no arejado, moderno e descontraído lounge do cinema São Jorge era de alegria e convivialidade.

A partir das 23h, e a antecipar a performance dos Gazua, o DJ Billy deu início à sua sessão, com uma selecção musical muito diversificada e num registo relativamente calmo. Da semi-obscuridade da sala destacava-se o admirável cenário da autoria de João Morais. A sala foi-se gradualmente enchendo e estava já bastante composta quando, por volta das 23.40h, se percebeu que o espectáculo estava prestes a começar.


A música ambiente cessou, dando lugar a uma interessante peça da autoria do DJ Billy que funcionou na perfeição como introdução à entrada dos Gazua. A peça consistiu numa sequência de trechos de músicos/bandas que primaram (ou primam) por uma postura/mensagem oposicional ou contracultural (tais como como Patti Smith, Dead Kennedys, Censurados, 77, Carlos Paredes/Miguel Leiria e R12), intercalados por estática de rádio, e criou eficazmente um ambiente de concentração e expectativa, estando ainda em total sintonia com o espírito desta banda.


Foi no final desta peça, e sob os aplausos da assistência, que o power trio João ‘Corrosão’, Paulinho e Corvo entrou em palco, e deu início ao que viria ser a segunda surpresa da noite (a primeira fora, sem dúvida, a original peça de DJ Billy): um texto de João Morais, “Até Quando Vamos Esperar”, declamado pelo próprio, com fundo instrumental (bateria e baixo), num registo poético mas simultaneamente de interpelação social e política, em consonância com as ideias orientadoras deste Contracultura.


Foi de facto um dos momentos marcantes do espectáculo, que continuou, em crescendo, com as novas faixas “Casa dos Fantasmas”, “Perigo Eminente” e “Preocupa-te”. De referir a adesão imediata e resposta entusiástica do público, em grande parte conhecedor da discografia dos Gazua (incluindo os temas do novo trabalho já disponíveis no site da banda no myspace).

Seguiram-se “Ouvi Falar de Ti”, “Reescrever a História”, “Revolta” e “Sair da Escuridão”.



Foi com alguma surpresa que testemunhámos a aceitação quase imediata e a resposta francamente positiva ao excelente mas bastante experimental e algo sui generis “Chamando Urano”, o que indicia uma flexibilidade e eclectismo crescentes por parte do público musical. Seguiram-se-lhe “A Mudança Que Queres Ver”, sem dúvida um dos temas fortes do novo trabalho, e “Ela era Agonia”.




“Morreu o coveiro”, a faixa de punk rock simples e límpido interpretada pelo baixista Paulinho foi também visivelmente apreciada pelo público, que a recebeu com entusiasmo e bastante efusão.


Nova surpresa estava reservada com o tema “Queremos a Música de Volta”, em que o trecho “temos de experimentar coisas novas” foi seguido de uma inesperada performance dramática de Andrea Inocêncio, intitulada "33 Crucificação-Acção",  uma figura feminina crucificada entra em cena, desperta de um sono profundo e, parcialmente desnudada, liberta-se das cordas que a aprisionam, descendo do palco e colocando-se no meio da assistência que (decerto após alguma orientação) começa a escrever no seu corpo.

De leitura pouco óbvia, este inesperado happening causou impacto, impressionou pela atitude de abnegação e de entrega incondicional aos outros, eficazmente dramatizada pela actriz/performer,   e constituiu sem dúvida mais um elemento distintivo deste espectáculo dos Gazua. Contudo, talvez tenha pecado pela duração excessiva e por desviar a atenção do público daquele que era o foco central do evento, ou seja, a actuação da banda.


Decorrida cerca de 1 hora, e depois de “Vontade de Gritar” e “Para Todos”, dois dos temas mais fortes da banda, entusiasticamente recebidos (e correspondidos) pelo público, o espectáculo terminou da melhor forma, com o emblemático “Fazia Tudo Outra Vez”.


A festa continuou no lounge do São Jorge, com uma animada sessão de punk rock preparada pelo DJ Billy, e com os membros dos Gazua, muitos dos seus amigos e fãs em alegre confraternização, e só acabou mesmo (a contragosto) por volta das 2 da manhã, com o encerramento do espaço.


Os Gazua estão de facto de parabéns, em primeiro lugar pela produção de um novo trabalho de alto nível, e também pelo sucesso desta original festa de lançamento, criteriosamente pensada e preparada e generosamente oferecida a todos os que nela quiseram e escolheram participar.

Fica o vídeo de "Fazia tudo outra vez" enquanto esperamos pelos registos do novo trabalho...
 


GAZUA | Vídeos de Música do MySpace

15 junho 2010

Uma análise de "Contracultura", o novo trabalho dos Gazua

A poucos dias do lançamento de Contracultura, o terceiro álbum de originais dos Gazua, agendado para a próxima sexta-feira, 18 de Junho, às 23h no Cinema São Jorge em Lisboa, o A Crack in the Cloud avança aqui uma análise pessoal deste trabalho.

Impõe-se desde logo um 'aviso à navegação': o texto que se segue não é uma review musical no sentido comum, mas sim uma análise crítica deste trabalho, fundamentalmente na sua vertente cultural e não estritamente musical.

O A Crack in the Cloud desde já recomenda a leitura da excelente review ao álbum da autoria de Billy, disponível no blog Billy-News. Para ler esta review clicar aqui.


O último trabalho dos Gazua, Contracultura, é como que um espelho de nós próprios, um misto de contrastes e dicotomias: é simultaneamente uma brisa fresca e um furacão, embala-nos e sacode-nos, arrebata-nos e ao mesmo tempo confronta-nos com o nosso eu mais interior, com os nossos fantasmas, com o nosso comodismo, individualismo, alienação, passividade e responsabilidade pelo actual estado de coisas…Ao mesmo tempo, contudo, mostra-nos que não estamos sós no nosso descontentamento e impotência, e que o caminho da mudança passa por alterações profundas, tanto a nível individual como colectivo: por uma verdadeira “cultura alternativa”! 

Contracultura é um trabalho mais rico e complexo do que os anteriores Convocação (2008) e Música Pirata (2009), tanto em termos musicais como de mensagem. Contém por isso faixas de um rock fácil, rápido e catchy, que se ouvem num fôlego só, a par de outras mais trabalhadas e experimentais, que exigem uma audição mais aprofundada e uma maior flexibilidade - do ouvido e da mente.

O álbum mostra-nos igualmente um colectivo mais maduro e muito bem sintonizado, com uma identidade própria que, apesar de já bem visível nos trabalhos anteriores, se revela aqui de forma muito mais vincada e segura, não só ao nível da produção colectiva como da criatividade e das especificidades individuais. Este trabalho destaca-se ainda pela qualidade (literária) das letras, assim como pelo design elaborado e conceptual, ambos da autoria de João Morais (ver entrevista em posts anteriores).

“A mudança que queres ver” é simplesmente arrebatadora, e confronta-nos, sem dó nem piedade, com a superficialidade que cultivamos dentro de nós e nas nossas relações com os outros, assim como com a apatia e indiferença com que nos escudamos das dificuldades, complexidade e problemas do mundo em que vivemos. Contudo, dado que cada um de nós é parte integrante desse mesmo mundo, a responsabilidade da mudança tem de ser assumida activamente:

“(…) E corres! corres! / mas não podes fugir / tens de te tornar na mudança que queres ver”.

“Preocupa-te”, o segundo tema do álbum, com um ritmo igualmente rápido e contagiante, concretiza um pouco mais as facetas que a mudança individual deve assumir, apelando à necessidade de maior atenção, reflexão crítica e envolvimento com o mundo em que vivemos e com aqueles que o partilham connosco.

“Preocupa-te com o facto de não teres dinheiro / se trabalhas sem parar o ano inteiro / preocupa-te se alguém não sabe ler nem escrever / num mundo já de si traiçoeiro”.

Simplesmente vertiginoso, “Ele Já Não Respira” retoma, num registo poético, uma temática já abordada em trabalhos anteriores (por exemplo em “Por Outro Lado”, Música Pirata), nomeadamente a dos sem-abrigo: pessoas comuns cujos projectos de vida falharam e para quem a sociedade continua a não ter resposta, deixando-os à mercê da degradação, dos elementos e da caridade de alguns.

“Deste tudo o que tinhas para dar / A vida parou num beco sem saída / Submerso numa poça tentaste-te levantar / Ele já não respira!”

Em “Mais Significado” o ritmo abranda, mas não o olhar clínico social, que se dirige implacável ao consumismo desenfreado que aliena, aprisiona e eficazmente neutraliza a consciência crítica, a mobilização colectiva e o seu indubitável potencial de oposição e de mudança. A letra apela por isso à capacidade de recusarmos as falsas promessas do consumismo capitalista, e de procurarmos satisfações e recompensas mais sólidas noutras esferas, talvez das relações humanas, e de actividades não monetizadas:

“Há mais na vida e mais verdadeiro/ Que não se vê e não custa dinheiro”.

“Morreu o Coveiro” oferece-nos um momento fugaz de escapismo, transportando-nos para os ambientes lúgubres do romance gótico, e para a figura solitária, singular e marginal do coveiro, que vive o dia-a-dia numa espécie de limbo entre o mundo dos vivos e dos mortos, até ele próprio sucumbir… Esta música tem a particularidade de ter letra e voz do baixista Paulinho.

“Chamando Urano” é talvez o tema mais experimental do álbum, num registo mais lento e que convida à introspecção. É um lamento desencantado perante a violência, o ódio, a falsidade, a discórdia e a ganância inescrupulosa do mundo actual, e a decisão da fuga para um planeta distante, por mais inóspito que seja à vida humana…

“Perigo Eminente” traz-nos de volta à ‘Gazualand’ do rock límpido, melódico e acelerado, e à temática já familiar dos borderliners, pessoas - reais, que todos conhecemos ao longo das nossas vidas - cuja rebeldia e intensidade assumem por vezes contornos patológicos, precipitando a sua auto-destruição…

“Corpo Oco” traz ao de cima a preocupação dos Gazua com a história recente do país. Ao ouvi-lo, relembramos o regime ditatorial que marcou (e marca ainda…) indelevelmente os destinos e a identidade nacional. Aproveitando a margem interpretativa que o tema permite, escolhemos lê-lo como uma recusa e denúncia das tentativas persistentes de branquear o fascismo e de reabilitar esse homem tenebroso e facínora que foi Salazar:

“Uma pele suja num corpo oco / E ver-te cair soube-me a pouco”.

“Divagueando” é um interessante exercício instrumental, e constitui mais um ‘corte’ neste álbum marcado pela exploração de vários caminhos sonoros.

“Casa dos Fantasmas” recupera o registo mais melódico, escorreito e acelerado ‘tipicamente Gazua’.

“Nunca Estou Satisfeito” surpreende-nos pela sua improbabilidade: um tema rápido, fresco e leve que nos fala (com algum humor) da insatisfação permanente que caracteriza a natureza humana. Uma escolha estranha para terminar um álbum que se caracteriza essencialmente pela densidade reflexiva…

… E eis que surge então, de forma surpreendente e inesperada,  “a cereja no topo do bolo”: após o término da música, um silêncio longo e pesado dá lugar a uma faixa escondida, intitulada “A Minha Droga”. É uma música profundamente sombria e intimista, quase arrepiante, dominada pelo lamento de uma guitarra eléctrica a abafar uma voz off que, num registo poético e filosófico, sintetiza algumas das principais ideias que perpassam não só este Contracultura, como a obra feita dos Gazua: o descontentamento perante o mundo actual, e a premência de redescobrir e implementar, individual e colectivamente, uma cultura humanista cívica e democrática (com raízes históricas milenares) que nos conduza a formas mais justas e igualitárias de vivência comum.

“A minha droga são pessoas / fortes e decididas / que não baixaram a cabeça / não se deram por vencidas / esmurraram as mesas / marcaram posições / perderam gotas de sangue / à procura de soluções (…)”.

Em suma: Contracultura é indubitavelmente uma amostra concentrada do melhor que o rock pode oferecer no mundo do século XXI. Em termos de sonoridade, proporciona-nos uma experiência musical plena e enriquecedora, mas de alguma exigência interpretativa, requerendo concentração e flexibilidade q.b.

Em termos de conteúdo, Contracultura é um verdadeiro survival kit para enfrentarmos o quotidiano difícil numa sociedade hiper-capitalizada, desorientada, alienada, em que a falência de um sistema económico putrefacto desde a nascença precipita e agudiza muitas das suas consequências nefastas: a desigualdade e a injustiça, a miséria e a desumanização a todos os níveis (político, económico, social e cultural). É também um abanão violento que nos impele a uma mudança interior e de atitude perante os outros e perante o mundo, e que terá de constituir o primeiro e imprescindível passo para a mudança e melhoria dos destinos individuais e colectivos.

(Maria João Ramos, aka Sheena)

Para adquirir o Contracultura (ou os trabalhos anteriores da banda), basta visitar o site dos Gazua no myspace e seguir as indicações fornecidas.

Fica o convite original dos Gazua para a festa:


GAZUA | MySpace Music Videos

10 junho 2010

Entrevista a João Morais (Gazua) - 2ª Parte


Na continuação do post anterior, reproduz-se aqui a 2ª parte da entrevista ao frontman dos Gazua, João Morais, maioritariamente centrada no 3º álbum de originais da banda, Contracultura, e no seu lançamento, agendado já para o próximo dia 18 de Junho.


O que é que as pessoas em geral, e os apreciadores de Gazua em particular, podem esperar deste novo trabalho, Contracultura, em termos musicais (continuidades/rupturas e inovações)?

A continuidade estará sempre lá, pois somos os mesmos 3 músicos, tocamos os mesmos instrumentos e continuamos os 3 de cabeça dura!


Inovações e rupturas haverá sem dúvida... a nossa música é de e para pessoas de mente aberta. Não há preconceitos! O estado de espírito muda e com isso muda a composição. Se há coisas que não são bem-vindas são barreiras criativas.


Gostei de ouvir dizer que o Contracultura é um disco à "gazua", o que quer dizer que existe um cunho nosso.

O vosso pendor crítico e de intervenção torna-se mais explícito e omnipresente no trabalho que está aí a ‘rebentar’. Queres explicar o título (e talvez do conceito orientador) do álbum, Contracultura? É um conceito com uma grande carga histórica…

De forma sucinta, Contracultura foi o nome dado a um movimento que atravessou os anos 60, incidindo particularmente nos EUA mas também na Europa (França com o Maio de 68 e na Checoslováquia com a Primavera de Praga também em 68), onde se viveram anos de muita contestação social levada a cabo por jovens que se mobilizaram para questionar e criticar os valores culturais vigentes.


Tabus como o racismo, a corrupção, a guerra e os direitos das mulheres ou os direitos civis de uma forma geral, são alguns exemplos das motivações que geraram estes movimentos.

Gostei da ideia, li um excelente livro sobre o assunto e achei o tema ideal para explorar no novo trabalho.

De que forma é que o conceito de contracultura é desenvolvido no álbum (nas temáticas abordadas e também graficamente)?

O disco tem um design muito inspirado nos flyers que se usavam há uns anos para passar informação.

Tem um poster com uma série de personalidades que criaram pontos de mudança ao longo dos tempos, desde o Voltaire em França no séc. XVIII com a defesa das liberdades civis e religiosas, ao Michael Moore e os seus filmes que denunciam alguns podres da sociedade americana. São tudo pessoas que tentam criar os tais pontos de mudança.

O disco vem acompanhado ainda de um patch para coser numa peça de roupa, uma palheta para tocar, um pin para colocar num casaco ou mala e um autocolante para colar em qualquer lado, sendo tudo junto uma espécie de "Kit" para esta nova Contracultura.

(Imagem disponível em http://www.myspace.com/gazua)

Vários temas deste novo trabalho – por exemplo “A Mudança que Queres Ver”, ou “Preocupa-te”, já disponíveis no vosso site do myspace - apelam à necessidade (e à urgência) de uma tomada de consciência e participação individual activa na transformação social...vocês consideram-se herdeiros e representantes na sociedade actual da tradição da música de intervenção? Ela ainda faz sentido hoje/é necessária?

O facto de ter havido um regime Fascista em Portugal não justifica que apenas nessa fase tivesse havido contestação. Hoje não temos o Fascismo, mas temos o Capitalismo, que é um inimigo também perigoso, mas muito mais "matreiro". Não se mostra com tanta clareza.


A música de Intervenção é isso mesmo... inspira a Intervenção e isso tem que fazer parte do nosso dia-a-dia.

Sim, a consciência histórica é outra das características bem visíveis no vosso trabalho. Têm temas dedicados a momentos e a figuras importantes da nossa história… Raymond Williams, um teórico social e cultural britânico, afirma que “a história ainda nos mostra a maior parte do passado conhecível e todo o tipo de futuro imaginável”. É também esta a tua/vossa visão? É por isso que a história recente está tão presente no vosso trabalho?

Uma opinião não se pode construir apenas pensando no presente e olhando para o futuro. Tem que ter as suas fundações também no passado. É como um alicerce.

A maior riqueza de um país está na sua identidade cultural, é aí que se cria um elo entre o seu povo. Claro que há sempre coisas boas e coisas más, mas teremos que saber usar os exemplos bons e não repetir os exemplos maus.

Um dos problemas que sinto que temos é que de repente há uma nova geração em que as suas (poucas) referências vêm todas de fora e por isso acabam por desprezar o seu próprio país não sentido qualquer vontade de lutar por ele numa perspectiva de intervenção política, deixando o país à deriva.

(Imagem disponível em http://www.myspace.com/gazua)


Para terminar, gostava que levantasses a ponta do véu relativamente ao que poderemos esperar da festa de lançamento do álbum, já no próximo dia 18 no S. Jorge…

Esse concerto está a ser preparado de forma um pouco mais especial, não porque é mais importante que os outros concertos (não é!), mas porque queremos fazer desse dia um dia de viragem na nossa atitude em palco, não uma viragem radical, obviamente, mas criando mais pontos de comunicação com o público e com um fio condutor mais consistente do inicio ao fim do espectáculo.

Vamos como é óbvio tocar muitos temas do novo disco...


Temos neste momento um problema que é a selecção dos temas, visto a lista estar a crescer bastante :-)


Obrigado pela entrevista e pelo apoio!

O A Crack in the Croud é que agradece, ao João pela disponibilidade, e aos Gazua pela música entusiasmante e interpeladora.

Entrevista realizada por Maria João Ramos, aka Sheena.  

08 junho 2010

Entrevista a João Morais (Gazua) - 1ª Parte


(Foto  por Sónia Pena, disponível em

Os Gazua são uma das bandas mais interessantes, activas e produtivas do panorama musical actual. O projecto nasceu em 2005 mas é constituído por três músicos com um longo percurso e experiência profissionais: João Corrosão (guitarra e voz), Paulinho (baixo e voz) e Corvo (bateria). O volume e o ritmo de trabalho deste verdadeiro power trio são extraordinários, com a produção de um álbum de originais por ano desde 2008.

O lançamento do novo trabalho, Contracultura, agendado já para o próximo dia 18 de Junho no Cinema São Jorge em Lisboa, é indiscutivelmente um dos principais acontecimentos de 2010 no panorama musical nacional  e deu o mote para esta entrevista: João Morais é o vocalista, guitarrista e autor da maioria das letras e das músicas dos Gazua, assim como do grafismo elaborado e conceptual que é mais um elemento distintivo deste projecto.

O A Crack in the Cloud muito agradece desde já a disponibilidade do João, numa altura de grande azáfama na preparação do lançamento deste terceiro álbum de originais.

 
Para quem ainda não vos conhece: quem são os Gazua e como defines o vosso projecto?

Os Gazua são 3 músicos de cabeça dura que não conseguem deixar de fazer música. Todos temos bastante experiência no circuito musical, e concentramos agora energias para levar este projecto o mais longe possível.

Somos uma banda de essência punk-rock, mas sem preconceitos para com todos os outros géneros. As portas estão escancaradas! A música é uma linguagem Universal!

A maior ligação ao punk-rock surge por ser uma das nossas principais referências musicais, e por ser um género onde a parte lírica desempenha um papel importante e reivindicativo.

Podemos considerar que tocamos música de intervenção.

(Foto disponível em http://www.myspace.com/gazua )

As categorizações musicais convencionais são importantes para vocês?

As categorizações são necessárias mais na perspectiva da indústria, onde tudo se encaixa por estilos e/ou géneros.Claro que isso influencia tudo o resto e hoje é essencial para facilitar a explicação do que se está a fazer.

No que diz respeito ao funcionamento da banda, penso que é pouco importante, pois o que tentamos fazer é algo com que nos identifiquemos e isso pode vir de referências bem distintas e não só do punk-rock.

Ainda sobre a vossa ligação ao punk, não só em termos musicais mas também conceptuais…consideras que o punk foi um fenómeno datado histórica e geograficamente ou que ainda existe e é pertinente hoje, por exemplo no contexto nacional?

Se pensar neste género como uma filosofia de vida (mais autónoma em relação à cultura instituída), acho que o punk pode estar presente sempre que assim optarmos, sempre que quisermos levantar a voz e criticar alguma coisa que achemos menos correcta, ou simplesmente se quisermos fazer as nossas próprias opções de vida não seguindo apenas a moda da altura.

Claro que há sempre quem transforme o punk numa moda, (ou num cartão de visita em Londres...), mas este género veste-se por dentro e não por fora.

Cá em Portugal, penso que todos deveríamos ter algum "punk-rock" dentro de nós :-), pois isso ajudaria a desenvolver algum espírito crítico, coisa muito em falta no nosso país.


O conceito do vosso trabalho estende-se também à forma como todo o grafismo/artwork é concebido e implementado em cada um dos álbuns…

O grafismo também ajuda a ampliar a mensagem que se quer transmitir. Ainda para mais, tenho formação em design e nesse aspecto não gosto de deixar passar nada ao acaso.

Sempre me fascinou o artwork dos discos das bandas que gosto, por isso dou muita importância ao que se transmite visualmente.

Fala-nos um pouco do caminho que a banda percorreu ao longo destes três trabalhos, separados entre si por um curtíssimo espaço de um ano…em que medida em que eles se diferenciam…ou como é que vocês evoluíram, no que concerne à vossa música e enquanto colectivo?

Costumo dizer que gravar um disco faz uma banda olhar para si própria e aprender muito em relação ao que está a fazer. Gravar 3 discos dá portanto um conhecimento muito mais profundo. Os Gazua cresceram muito com o estúdio e com o feedback que esse trabalho trouxe de fora. Conseguimos entender melhor o que queríamos. Vejo estes 3 discos como uma evolução natural, onde fomos tentando ser cada vez melhores naquilo que fazemos.

O primeiro disco "Convocação", foi um trabalho mais cru musicalmente e liricamente, o segundo disco "Música Pirata" já teve mais trabalho ao nível da composição dos temas e das letras, os temas tornaram-se por isso mais complexos, e no terceiro "Contracultura" procurámos um equilíbrio entre os dois primeiros, se bem que neste último o artwork teve uma componente conceptual muito mais aprofundada.

Como banda, diria que estamos muito mais adultos, e por isso mesmo queremos agora explorar outros caminhos que personalizem ainda mais o nosso som.
Que caminhos serão esses é que ainda não sabemos... :-)

(Foto disponível em http://www.myspace.com/gazua)

Vocês são também extremamente activos no que concerne a prestações ao vivo, sendo requisitados para um sem número de eventos um pouco por todo o país…Tens algum/alguns concerto(s) que guardes na memória, ou que recordes especialmente?

O palco principal da Festa do Avante foi sem dúvida o ponto mais alto até à data. Sentimos mesmo que o que estamos a fazer faz sentido.

Há com certeza outros concertos em que nos sentimos muito bem, mas achamos que estamos a começar e que o melhor ainda está para vir.

Como é que vocês conseguem conciliar a produção de um álbum por ano (sendo responsáveis por todo o processo criativo) com as prestações ao vivo, projectos musicais paralelos e as vossas vidas pessoais/familiares? É espantoso…a música é a vossa principal actividade?

HA! HA! HA! HA!!!
A música ser a principal actividade neste país seria quase mau sinal... para vender muitos discos acho que teríamos que descer muito a fasquia (infelizmente...). Pode ser que as coisas mudem.

Temos todos empregos durante o dia.
Em relação a projectos paralelos até se pode dizer que neste momento são inexistentes. Máxima concentração!!

Temos também tido uma política "financeira" em que o dinheiro que a banda faz é para gastar na banda, e isso tem criado condições para o trabalho continuado que temos vindo a desenvolver.

Há acima de tudo muita vontade de tocar e fazer passar a mensagem.

(Foto por Sónia Pena, disponível em


Como é que é ser-se músico em Portugal hoje?

Tirando uma ou outra estrela cintilante, pode-se dizer que é frustrante!
Infelizmente a Inglaterra e os EUA continuam a saber melhor o que é que é bom para nós... A nossa cultura musical é quase totalmente importada (assim como tanta outra coisa), deixando a música nacional sempre para segundo plano.
  
Há uma componente forte de reflexão e de crítica social e política no vosso trabalho, que tem vindo a assumir contornos cada vez mais expressivos …isso é casual ou tem a ver com a vossa experiência/percepção da sociedade contemporânea?

Digamos que estamos cada vez mais crescidos... e mais atentos!
Claro que quanto mais nos afundamos nesta sociedade totalmente capitalizada, mais sentimos necessidade de passar a nossa mensagem.

Queremos que as pessoas parem para pensar um pouco. Que se tentem concentrar no essencial e que consigam dizer não ao supérfluo.

O que nos é incutido diariamente é exactamente o oposto disto.

(Fim da 1ª Parte)

A segunda parte desta entrevista, mais centrada no novo trabalho dos Gazua - Contracultura - será publicada no próximo post.

Entretanto fica o vídeo de "Para Todos", ao vivo na Festa do Avante em Setembro de 2009.

28 maio 2010

Foto do Dia: Gazua por Cameraman Metálico




Para ver outras fotos dos Gazua por este carismático fotógrafo e jornalista musical, digníssimo conterrâneo e cidadão do mundo, disponíveis no site da banda no myspace, clicar aqui.

Recorde-se que os Gazua estão já em contagem decrescente para o lançamento do novo trabalho, Contracultura, agendado para o próximo dia 18 de Junho no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Entretanto, marcarão presença amanhã no Infected Fest 2 (Casa de Lafões, Lisboa, por volta das 18.40h) e no próximo dia 11 de Junho em Luz de Tavira.

A banda já avançou no seu site do myspace três excelentes temas deste novo trabalho, cuja audição se recomenda vivamente: "A Mudança que Queres Ver", "Preocupa-te" e "Casa dos Fantasmas". Basta visitar

25 maio 2010

Há festivais e Festivais...

Este post inclui os cartazes dos festivais musicais Infected Fest 2 (29 e 30 de Maio) e Festival Outsider 3 (10 e 19 de Junho), e o vídeo de "Queremos a Música de Volta" dos Gazua.

Os festivais de música têm sido objecto de tratamento na imprensa escrita recente, nacional e não só. Por exemplo, a revista Ípsilon de 14/05 e um artigo do The Guardian de 20/05  incluíam um "guia" para os múltiplos festivais musicais agendados para quase toda a silly season. A Y foca os festivais mais mainstream, o artigo do Guardian incide sobre alguns dos mais alternativos, originais e/ou menos institucionalizados...

Este interesse dos media (não só dos jornais) não é de estranhar, dado que a música (especialmente a dita pop e rock, e especialmente anglo-saxónica), e os respectivos eventos musicais se tornaram nos últimos anos um dos produtos de consumo mais agressivamente promovidos pelo mercado, e decerto um dos mais bem sucedidos, no que concerne aos lucros que proporciona à minoria  (afluente) que os produz, vende e operacionaliza.

Ao longo deste processo, a música tem vindo a tornar-se, cada vez mais,  um motivo meramente acessório, ou o pretexto ideal, para o consumo do produto-experiência festival.

A ida a festivais (ou em termos genéricos) a eventos musicais detém um estatuto equivalente ao de umas calças ou umas sapatilhas de marca, e é mais um complemento à casa  (nova ou renovada) numa zona in, ou ao carro novo, se possível de alta cilindrada e de uma marca (mais ou menos) exclusiva...

Ou seja: na sociedade de consumo, em que as pessoas constroem a sua identidade através do que têm e não do que são, ir a festivais, tal como possuir ou exibir determinados bens de consumo, é um indicador de integração e sucesso social. O slogan já gasto do Rock in Rio, orgulhosamente estampado nas T-shirts, é inequívoco: "Eu vou", ou eu fui, eu estive lá, eu sou in...

Só assim se compreende que num país onde o desemprego não pára de subir, onde os vencimentos são baixos, e o custo de vida elevado, cerca de 80,000 pessoas (e decerto não apenas de um segmento economicamente afluente da população) tenham participado no 1º dia do Rock in Rio (independentemente da qualidade -muito discutível aliás - do cartaz).

Num livro muito interessante sobre o consumismo actual, intitulado Consuming Life, Zygmunt Bauman distingue entre duas formas diferentes de convívio: anteriormente, na sociedade dos produtores (ou na época da "modernidade sólida", até há algumas décadas), havia o grupo: as pessoas reuniam-se com pessoas que conheciam, com as quais se identificavam, por via de laços familiares, profissionais, de amizade ou de interesses específicos.

Agora, na sociedade dos consumidores (modernidade líquida) há o enxame: as pessoas reúnem-se com pessoas que não conhecem, com as quais apenas partilham uma proximidade física, em eventos fugazes, sem que se estabeleça qualquer tipo de relação, de laço...De acordo com Bauman, a sociedade de consumo favorece o fim do grupo, da comunalidade, em detrimento do enxame (que fornece, ainda que fortuitamente, "a segurança dos números")...

E é por isso que há festivais de música (de que o Rock in Rio é um exemplo paradigmático)que são autênticos parques temáticos, cujo verdadeiro e principal fim e produto é a compra per se, ou seja,  o consumo (extremamente lucrativo) do merchandising, da fast food, da cerveja a preço de metal precioso, dos desportos pseudo-radicais, de um sem número de  futilidades que servem primordialmente os interesses dominantes do capitalismo, ou seja, o rechear ainda mais dos bolsos de alguns (quase sempre os mesmos).

Mas não tem de ser assim. O mundo não é assim,  não é só isso. Há eventos musicais onde o grupo ainda não deu lugar ao enxame. Ainda há festivais de música onde o principal  ingrediente e propósito, tanto de quem os organiza como de quem os frequenta, não é o lucro fácil e escandaloso, nem o pontinho na caderneta do sucesso e da pertença social, mas a MÚSICA. A oferta é considerável. É apenas preciso estar atento e fazer escolhas.

Ficam os  exemplos de 2 festivais de música que ocorrerão em breve,  que provavelmente não serão publicitados nos media, nem terão multidões, muito menos lucros assinaláveis, mas onde haverá decerto muita (e boa)  música, eminentemente nacional, a um preço acessível a todos, e um espírito palpável...de grupo.

Fica também o vídeo de "Queremos a Música de Volta", um dos (muitos) temas fortes de Música Pirata (2009) dos Gazua, já em contagem decrescente para o lançamento do novo trabalho, Contracultura, agendado para o próximo dia 18 de Junho no Cinema São Jorge, em Lisboa.





05 maio 2010

1 de Maio, Street War Fest 5 e a (não) comercialização do lazer (Parte 2)


Este post inclui algumas fotos do Street War Fest 5 (dia 1) da autoria de JMS.

Na sequência do último post, vou deter-me mais um pouco no livro de Seabrook, que aborda de forma brilhante alguns dos problemas da (nossa) sociedade contemporânea, nomeadamente nos âmbitos do trabalho e do lazer.

Seabrook coloca o dedo na ferida: no mundo do hipercapitalismo, em que a maximização do lucro implica a minimização dos custos de produção através, por exemplo,  da automação ou da deslocalização, não há empregos para todos. Ou, visto de outro prisma, não é necessário que todos trabalhem, nem que se trabalhe tanto.

Por outro lado, há uma série de trabalhos que não são remunerados, tais como a gestão doméstica ou os cuidados de dependentes (crianças, deficientes ou idosos). Seabrook (e outros autores, como R. Sennett) defende o reconhecimento deste tipo de tarefas como emprego e ainda  a criação de uma espécie de  rendimento mínimo para todos os membros da sociedade (basic income).

Sennett defende também a diminuição geral do número de horas de trabalho/semana, assim como a partilha de empregos. Deste modo, as pessoas poderiam ter mais tempo de lazer, que poderiam ocupar, por exemplo, com o seu desenvolvimento pessoal. Estamos decerto muito longe deste cenário social, cuja concretização exigirá sem dúvida um grande esforço colectivo e mudança de mentalidades.

Temos, em vez disso, uma sociedade em que a falência (óbvia) do sistema continuará a não ser reconhecida (por ser beneficiador do grande capital),  em  que aqueles que ainda têm emprego são cada vez mais sobrecarregados, explorados, 'esmifrados' até ao limite da sua sanidade física e mental (atentemos nas doenças e suicídios com origem "profissional"), enquanto que um número que não pára de crescer está desempregado,  com um "tempo livre" forçado, indesejado e muitas vezes destrutivo.

Um tempo livre que não é de lazer, dado que nas sociedades ditas democráticas e desenvolvidas o lazer (quer seja ocupado com a educação ou o entretenimento) tem sido sistematicamente privatizado, é pago, e logo, apenas acessível a alguns (muito menos a quem foi privado do seu meio de subsistência).

Basta que pensemos nas chamadas indústrias culturais : televisão (pública vs cabo), cinema, concertos, cinema,  livros, filmes, música (CDs/DVDs), etc., até mesmo o acesso à Internet, hoje sem dúvida o mais extraordinário meio de informação e comunicação. Que percentagem da população tem acesso à generalidade destes bens culturais...e com que 'abundância'?

E é por isso que vale a pena estar atento(a) à cada vez mais reduzida oferta cultural/de lazer gratuita existente,  e aproveitar as iniciativas/os equipamentos culturais de cariz autárquico ou associativo, como as bibliotecas, as oficinas, ou os inúmeros Festivais Jovens que estão a ocorrer um pouco por todo o país.

 
E é aqui que (finalmente) chegamos ao Street War Fest, um evento musical anual já na sua 5ª edição, por onde passaram este ano mais de uma dezena de bandas do circuito alternativo nacional. Nos nossos tempos 'hipercapitalizados' em que (quase) tudo - incluindo o lazer -  é pago e onde poucos aceitam trabalhar sem retribuição financeira, este evento destaca-se, desde logo, pelo facto de ser gratuito e totalmente DIY, ou seja, organizado por um conjunto de pessoas que oferecem o seu tempo e o seu trabalho para a sua realização (nos  tempos "hiperindividualistas" em que vivemos gestos como estes não podem deixar de ser notados e devidamente apreciados).

Este evento destacou-se igualmente pela qualidade e reputação dos músicos que nele participaram e que, pela arte e não pelo dinheiro, insistem e não desistem de conjugar (decerto com esforço e boa vontade) as suas vidas profissionais e pessoais paralelas com os seus projectos musicais totalmente DIY (ou seja, assumindo e controlando todos os estágios do processo, desde a criação à divulgação e distribuição).

Destacou-se, para mim, pessoalmente, e especialmente na data histórica que se celebrava (1 de Maio), pela participação de bandas que privilegiam a mensagem, e que abordam criticamente temáticas da vivência contemporânea/da actualidade social, económica  e política, continuando assim a tradição da música de intervenção, tão importante nos processos da democratização nacional. Refiro-me particularmente a Punk Sinatra, Gazua e Dalai Lume, três dos projectos musicais mais interessantes e mobilizadores da actualidade.

Ficam por isso algumas fotos destas três actuações, com algumas notas breves e os links para os websites das bandas no myspace, onde estão disponíveis músicas, vídeos e datas das próximas actuações.


A prestação dos Punk Sinatra foi verdadeiramente frenética, com um Almendra imparável e talvez ainda mais expressivo e exuberante do que em Peste & Sida...




A sonoridade e mensagem poderosas dos Gazua também não deixaram ninguém indiferente, como a imagem bem ilustra.


A banda apresentou algumas músicas do novo trabalho Contracultura, com lançamento marcado para o dia 18 de Junho no Cinema S. Jorge (Lisboa).



A prestação dos Dalai Lume inflamou (quase literalmente) a plateia, que correspondeu incondicionalmente.


De realçar a expressividade dramática que caracteriza o vocalista Zorb, aqui acompanhado pelo músico Freddy Locks.


A subida ao palco de João Ribas (Tara Perdida), a convite de Zorb, para colaborar na interpretação de dois temas, foi também um dos pontos altos da prestação dos Dalai Lume.



A música ambiente ao longo da tarde e noite esteve a cargo do inconfundível DJ Billy, com uma selecção muito abrangente, que incluiu  temas punk clássicos e incontornáveis, assim como produção recente e pouco conhecida, tanto de bandas portuguesas como internacionais.